Banimento
Tem dias que a gente acorda e vê no espelho, aquele outro que deveria ter sido ou o que não deverá ser. Do que não se fez ou do que deveria fazer. Dá uma vontade louca de jogar tudo para cima e sair correndo por aí, até a gente se encontrar ou que alguém nos encontre.
Eu quero é pele na pele, cheiro no cheiro, bocas na boca.
Este escrito é para os psicanalistas que nos arrancam os pedaços e para Laércia.
Ritual de Banimento
Thúlio Antunes
Quero banir a minha dor
E a estreita relação com o indivíduo.
Quero refazer os traços
Riscados a lápis grafite
E acendê-los com o mais puro sangue
Vinho de minha ébria fronte.
Quero banir os meus vestígios
E sonhar uma vida tropeira
Sem fim e sem misericórdia.
Sem acordes sustenidos
E sem a glória dos corais de outrora.
Quero banir meus diáconos
Meus padres e suas batinas sujas.
Quero recitar minhas próprias preces
Caducas de saudades e sortilégios
Cheias de disfarces e umbigos.
Quero banir minha saliva azeda
De tantas bocas que não beijei
Escória imunda e maravilhosa!
Dos velórios que se fizeram em mim
Sem pranteadoras
Sem recitais.
Quero banir minha inércia
Quero banir minha passividade
Apaixonadamente cativa de culpas
Chorosamente endiabrada
Dos carrascos que me beijam
E se ocultam no espelho.
Quero banir meus demônios
Quero banir meus Lázaros
Quero banir minha moral defeituosa
Quero banir as traças do meu corpo
Quero banir o conforto
Quero banir o comum e o perfeito.
Quero banir o futuro
E de lá despejar o meu futuro
Numa felicidade sem expectativas
Blindadas de lápides
E cercanias sem refúgio.
Escrito por thulio antunes às 12h13
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Pierre Split, grande DJ, pediu-me uma letra para um novo projeto. Sinceramente, não sou muito das rimas e da poesia crioula. Mas temos que tentar e experimentar tudo. Vamos lá: Para o Pierre.
Carpinejando nas Ladeiras de Campina
Thúlio Antunes
Esse canto que me encanta
É veneno de cobra
É boitatá disfarçado
Que serpenteia no meu tino.
Esse sorriso e o teu cheiro
Acendem minhas narinas
E a tua memória verdejante
Deságua rios nos meus olhos.
Por que não se pode ficar
Com quem se quer estar?
Não se pode escancarar
A porteira do coração?
Ê, crioulo, creolina
No asfalto, na terra,
Nas ladeiras de Campina!
Carpineja, Ê!
Me encanta esse acalanto
Que às cobras envenena.
Teus beiços, puro mel
Alegram o tempo findo.
Minha sede de tua língua
Se reflete nos meus dedos
Tateando qual um cego
Nas paredes e espinhos.
Por que não se pode ficar
Com quem se quer estar?
Não se pode escancarar
A porteira do coração?
Ê, crioulo, creolina
No asfalto, na terra,
Nas ladeiras de Campina!
Carpineja, Ê!
Escrito por thulio antunes às 12h06
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Saudades de Alana Fernandes
Meu olfato se ressente De encontrar o cheiro da tua alma, Sempre fluida, Ocupando todos os espaços.
A saudade, Objeto pontiagudo, espinhoso, Aliada da distância Outra causa deste óbice, Não permite meus olhos Mirar nos teus. E assim, como passantes De uma leva distante, Nos acenamos. E afirmamos, para nós mesmos Nosso amor pelo outro. Fingindo sorrir À saudade que aos olhos escapa.
Escrito por thulio antunes às 09h13
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Irwin Shaw
Povo do bem.
Ainda há pouco, lembrava da minha infância. Repleta de livros e poucos amigos. As viagens maravilhosas que fazia de dentro do meu quarto. Quase toda a antiga séria vaga-lume, lida aos sete anos: O escaravelho do diabo, éramos seis, cem noites tapuias, o rapto do menino dourado, menino de asas e por aí vai... Monteiro Lobato, Júlio Verne... Hummmm Quanto sabor literário!
Lembro meu pai deixando crédito livre para mim na livraria. Podia comprar o que quisesse. Começaram logo em seguida, livros de "adultos". Morris West (sandálias do pescados, o advogado do diabo), Jackelinne Susan (Yargo, O vale das Bonecas, médico de homens e de almas) até que um dia comprei um de um cara chamado Hitler. Era o Mein Kampft! (minha luta!) em que Hitler justificatava seus ideais. Meus pais quando viram ficaram horrorizados! - Menino! Devolve isso. Esse livro é do mal! E eu, filho da ditadura, achando que era algo contra o governo, corri à livraria Novo Mundo para trocar. Lá chegando, o dono da livraria já tinha espalhado que eu estava lendo o livro de Hitler. Foi comentado na escola e até no catecismo. O menino de Hermes, celebrado na pequena cidade de Sousa como o intelectualzinho, estava em perigo ou pondo em perigo toda uma sociedade ao querer ler Mein Kampft!.
Temeroso, troquei logo por outro. Nem li as orelhas do dito cujo. Sei que era um romance de Irwin Shaw intitulado "O Erro de Lucy Crown".
Todos deram tapinhas nas minhas costas e apertaram minhas bochechas gordas e sardentas... Estava salvo!
Mas, ao contrário do que pensavam, o livro de Irwin Shaw era a história de uma mulher bem casada, mãe, que deixa de lado toda a segurança por uma aventura com um rapaz mais jovem. E a dor do seu filho de dez anos, ao ver sua família em desarmonia. O esposo a perdôa. Ficam juntos. Mas o filho não a aceita e, entre dor e sofrimento (tão bem desenhados por Irwin!), deixa a casa dos pais para estudar em um colégio interno. Um dos diálogos mais fortes e que, me seguiram por toda a vida, foi o diálogo entre mãe e filho, ao se despedirem. O filho, tremendo de emoção, esboça um sorriso e pergunta à mãe: "Se algum dia nos encontrarmos, na rua ou no metrô, o que diremos um para o outro?" a mãe, sem forças, respira e responde: "acho que diremos olá". "É bom." disse ele. "Acho que diremos mesmo olá". E em um grito de angústia, os dois se abraçaram e choraram juntos, pois sabiam que nunca mais as coisas ficariam do mesmo jeito.
Já viram que em mim, este livro exerceu mais peso do que o de Hitler...
Arrocha momento Baiacú!
Salve, Irwin!
Escrito por thulio antunes às 08h53
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Meu Momento Baiacu
O Baiacú é um peixe estranho e interessante. Quando se sente ameaçado infla-se, sugando rapidamente água, transformando-se em algo parecido com um balão de borracha cheio de espinhos. Mas como um balão, fica à deriva. Sendo transportado pelas correntezas de um lado para outro, até se esvaziar e, novamente, ser dono do seu nariz.
Estou vivendo um momento baiacú. Me inflei do ar à minha volta. Ar repleto de histórias, agonia, dor e, algumas vezes, repleto de vazio.
Estou navegando ao sabor da correnteza também. Não sei onde essas águas vão me levar. Só espero que seja um local calmo, tranquilo. Onde eu possa me olhar devagar, sentir meu cheiro e celebrar as excursões à minha alma.
Escrito por thulio antunes às 08h32
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De Férias
Um provérbio tibetano diz que as palavras não tem nem pontas, nem corte, mas podem ferir o coração de um homem. De férias em Jampa, mas com saudade do povo
Escrito por thulio antunes às 17h36
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Estou apaixonado pela voz dessa mulher.
Jussara Silveira é mineira e baiana de coração. Estudou canto na UFBA e já ganhou diversos prêmios nesta área.
Sua voz e suas músicas são tão lindas que chegam a doer.
Vale a pena ouvir.
Preparem o vinho, o queijo e os lenços. E não deixem de me chamar.
Escrito por thulio antunes às 16h06
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Outro dia, eu e o amigo Francisco Alexandre, conversávamos regados de um bom Chopp. Entre um gole e outro, saíram frases lindas. Uma destas, foi dita pelo Francisco "o mínimo que posso fazer por mim, é ser eu mesmo". Pedi permissão para furtá-la e incorporar em um escrito futuro. Bom, aí está. Para aqueles que teimam em serem autênticos e livres. E para ele, o Francisco.
Seguindo Thúlio Antunes
Um rosto solar ilumina mais do que deve. Ilumina canções cansadas, Deixa pouca sombra. Quase nada para ocultar. A vida é só, Vida só. Dói sentir na palma da mão O que não se pode ter. Mas nesta canoa de vime, O importante é não ter peso Para a água não entrar. Assobios e gotas de chuva Compõem a trilha sonora. Para me esconder Entre o amor e o mar. Quem já me viu marejar Quem me ouviu cantar Quem já me deixou voar Sabe, (Tão-sabe, Deus!) Que o mínimo que posso fazer por mim É ser eu mesmo.
Escrito por thulio antunes às 15h42
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Retorno
Faz tempo que não escrevo aqui. Escrevo em outras formas e papéis.
Tese
Teso
Falta de tesão.
Mas vou postar uma coisa que escrevi para a comunidade do orkut "o canto fino de maneco". É uma comunidade de minha amiga-irmã Marcília, que reúne todos que, de alguma forma, são descendentes, viveram ou gostariam de viver no lugar chamado Canto fino.
E eu sou um deles.
Essa "escrita" é dedicada à ela e a todos os seus.
O Místico Canto Fino Thúlio Antunes
Nunca fui ao Canto Fino. Só o conheço pelas histórias incríveis que Marcília, seus irmãos e pais me contam.
Fico imaginando um lugar mágico, onde a morte passou de lado. E que vou encontrar todas as pessoas que viajaram para o encantado por lá. Tanto os parentes de Marcília quanto os meus.
Sonho que corro entre as suas pequenas veredas, sem deixar rastros. Parece que cada caminho que leva ao Canto Fino, transporta o sangue corado e as lembranças dessa gente de Maneco.
Vejo Chiquito e a sua Rita. Cobertos de alvura e carinho.
Chiquito e o tropel de seus cavalos, de sua luta.
Rita e sua fé. Vestidos brancos e chapéu impecável.
Os “meninos” chegam e me abraçam em todas as suas idades: Márcia com sua leveza; Marcelão puro carinho; Marcilene e seu olhar enciclopédico; Elione e sua fortaleza; Mercinha com a sua arte de encantar crianças; Marcília e seu coração infinito; e os outros que não lembro o nome. Distantes mas presentes na fala da emoção.
Canto fino ...
Maneco vem todo garboso e repleto de histórias para me contar. Quanta saga escrita na pele com espinho de mandacaru.
Ao longe, vejo também os meus que se foram: Vovô Chico de Zuca me acena. Mostra as plantas e a terra sertaneja que tanto amava. Escuto a música que dança na sua boca.
Tia Miquinha, Tia Merrena, Vovó Ana e Vovô Aquilino...
Assim como eu, nunca foram no Canto Fino, mas insistem em viver na poesia de lá.
Canto fino dos meus maiores bens encantados.
O Canto Fino é como uma linda poesia de Mário Quintana. Simples, pura e que termina dizendo tudo.
Lá, tudo é livre de desarmonia. Lá, se encontram amantes de todas as crenças. Lá, se come do bom e do melhor.
É lá, bem lá, onde moram os sonhos e a fonte de todos os perfumes.
Escrito por thulio antunes às 09h58
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Escrito por thulio antunes às 19h30
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Fiquei super emocionado ao entrar no Blog do Multi-intelecto-musico-poeta-ator Renan Barbosa e encontrar o poema que fiz para ele. Já se passaram muitos anos e a saudade dos "bons tempos" é presente. Peço licença para publicá-lo aqui também.
Cheiros meu amigo. Um grande beijo na sua boca.
Escrito por thulio antunes às 18h59
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ANGULAR (Thúlio Antunes)
Sou o somatório
Desses cacos de vidro
Que de forma caleidocópica
Se espalham pelo chão.
Lembrança de um copo vazio
Que, cansado de estar cheio
De ar,
Expandiu-se em forma de pensar
E em mil pedaços de vida-retalho
Se transmutou.
Sou os ângulos
Dessa pequena lasca
Que ao sol
O arco-íris confunde,
Neste bailar irriquieto
De fazer brilhar
Cacos, vidros e copos de todo dia.
Sou, em verdade,
A inércia desta bandeira
Que tomam por ideal.
A imprecisão desta linha sinuosa
Saindo do papel.
Sou em suma,
Toda a soma
Destes múltiplos sons
Que modificam e transformam
Partículas de cores
Em tons.
Sou o copo, o caco
A lasca e o retalho deste mundo avelã.
Sou muitos.
Sou de fato,
Renan.
Escrito por thulio antunes às 18h58
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Poeminha para Nadja
Quero ter comigo os olhos de Nadja, sua fala e seu sorriso.
Seu sinal no olho, na boca.
Quero ouvir seu sotaque carioca e cheirar seu cigarro traiçoeiro.
Porque preciso de mais olhos para ver tanta doçura.
Eles transbordaram de tanto vê-la.
Quero conversar com ela, Nadja de todas as canções incendiárias.
Cobra Naja, na defesa do que ama, de quem ama.
Colo imenso, cheio de bênçãos, de deuses.
Braços largos, abarcando o tempo, calendários e cataventos.
Porque o que escrevo é pequeno para definir.
Minha amiga, minha irmã, parte de mim, parte em mim.
Escrito por thulio antunes às 19h43
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Faz tempo que não escrevo...

Gosto de brincar com as palavras.
Penso nelas como um grande quebra-cabeça, cuja ordem maior não é a de montar uma figura; este não é o objetivo. A proposta é juntar peças e se encantar com o que elas formam.
Com as palavras me liberto – danço a minha dança ao som do gotejar da minha bile, vesícula abaixo.
Com as palavras me espanto, me visto e me cubro ao deitar.
Com as palavras me dou significado e arrisco voar.
Com elas suspiro colinas e montanhas abaixo...
Rios e outras levas de água. Correntezas, moinhos, praças.
Deixando em transe as estruturas que me apóiam.
Escrito por thulio antunes às 19h40
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Tisana
Reis do córrego
Irritam a mulher barbada.
Contando estórias de dentes e outros dentes
Arranca a dor pela culatra.
Risos, penas, pavões em desvantagem.
Dias em profusão de feriados.
Ombros, óculos e ósculos na noite sem fim.
Teu cheiro me acende
Essa boca que me chama e me embola.
Lentamente teus lenços de papel me enxugam
Entre teus olhos fixo meu peso
Suando por ti e tuas entranhas.
Escrito por thulio antunes às 21h27
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